Há 20 anos os indígenas de Chiapas saíram com armas e ocuparam as suas cidades. Foi um grito de desespero e esperança. Ao fim de séculos diziam “Basta!”

 

Há 20 anos os indígenas de Chiapas saíram com armas e ocuparam as suas cidades. Foi um grito de desespero e esperança. Ao fim de séculos diziam “Basta!”

 

A maior parte das vezes que acontece qualquer coisa estou a dormir. É uma questão estatística. Só estamos acordados pouco tempo na imensidão dos tempos, e às vezes mesmo vivos estamos de olhos fechados. Foi assim que se passou em Chiapas. Estava em Oventic, comunidade controlada pelos zapatistas, com um frio de rachar: o planalto está a mais de 1000 metros de altitude. Tentava aquecer-me embrulhado numa manta de lã que deixava passar o ar gélido, quando me abanaram e disseram que os guerrilheiros tinham chegado. Respondi que “amanhã também vai haver guerrilheiros”, virei-me para o lado e continuei a ressonar. Lá perdi a entrada da coluna do comandante Tacho, no meio da parafernália de tochas, na zona dos planaltos de Chiapas.

O aparecimento dos guerrilheiros gerou incredibilidade desde o primeiro dia, há cerca de 20 anos.

António Turok estava bêbado. A coisa não era para menos, festejava-se o ano novo de 1994 e já tinham decorrido algumas horas da madrugada de 1 de Janeiro na cidade de San Cristobal de Las Casas. Tinha passado a noite a dançar, comer e beber, não obrigatoriamente por essa ordem. O fotógrafo mexicano de origem russa estava a apanhar ar na rua quando deu de caras com umas centenas de indígenas de cara tapada e armados. O seu primeiro pensamento foi sobre os malefícios do álcool: “Grande merda, não posso beber tanto, já imagino guerrilheiros nas ruas”, disse para consigo.

Dirigiu-se convicto, embora cambaleante, para casa, com a intenção de curar a borracheira, mas os guerrilheiros teimavam em cruzar o seu caminho, como elefantes cor-de-rosa em dia de coma alcoólico. Chegado a casa foi buscar a máquina fotográfica, convencido de que os vapores da bebida não iriam certamente impressionar- -lhe a película. Era a forma científica de escorraçar os fantasmas. Passou a manhã a fotografar guerrilheiros que julgava imaginários. A certa altura, um encapuzado de olhos claros disse–lhe a sorrir: “Tira fotografias que vai valer a pena.” Era o homem que mais tarde seria conhecido como subcomandante Marcos a meter-se com o fotógrafo. Foi assim que anos mais tarde, em Chiapas, este último me contou a história.

Turok tirou as primeiras fotos da revolta dos indígenas do estado mexicano de Chiapas no dia da assinatura dos Acordo de Livre Comércio das Américas. Os indígenas que viviam do uso das terras comunais protestavam violentamente contra um acordo que iria privatizar as suas terras.

As imagens dos fotógrafos circularam na internet, divulgando de uma forma global este conflito local. As reacções mundiais que se seguiram impediram que o exército mexicano massacrasse os indígenas. Aos mais pobres habitantes de Chiapas a internet dizia pouco, até que perceberam que podia ser a diferença entre estar vivo e estar morto.

Os zapatistas perceberam como poucos que as suas lutas locais podiam ser defendidas por redes de activistas globais e entenderam que as suas reivindicações de justiça e democracia eram comuns a muitos povos que se encontravam ameaçados por uma globalização económica que não considerava os interesses dos pobres.

Em Julho de 1996, os zapatistas organizaram a primeira Conferência Intergaláctica, sob o lema “Há muitos mundos no mundo”. Mais de 5 mil activistas do planeta acorreram à selva para discutir com os zapatistas um conjunto de acções internacionais. Sindicalistas, anarquistas, terceiro-mundistas, ecologistas e alguns astronautas viveram durante uma semana nas aldeias de Oventic, La Garrutcha e La Realidad. Foi nesta última que se deu a conferência de imprensa final. Os jornalistas aproveitaram a ocasião para perguntar a Marcos qual era a sua reacção às declarações do então líder do Partido dos Trabalhadores, Lula da Silva, que se manifestava contra os movimentos de guerrilha e achava que a conferência intergaláctica tinha querido concorrer com o Fórum de São Paulo, encontro de partidos de esquerda de todo o mundo que organizava o PT. Marcos olhou com cara de espanto para os jornalistas, “Fórum de São Paulo? Não conheço, julgava que a gente concorria com os Jogos Olímpicos de Atlanta”. Nesta altura, como agora, as revoltas não se decretam, fazem-se, e às vezes acontecem. A força dos zapatistas não estava nas suas armas, mas nas suas ideias e nas populações indígenas que são o próprio movimento. Há muito que os povos de Chiapas deixaram de ser notícia mundial, mas não é por isso que não vivem e respiram.

No dia 1 de Janeiro de 2014, os zapatistas reuniram-se outra vez em Oventic. Eram milhares. Já não têm os olhares do mundo pousados neles. Aqui ficam as suas palavras: “Estamos a aprender a governarmo-nos de acordo com as nossas formas de pensar e de viver. Estamos a melhorar e todos, homens, mulheres, jovens, crianças e velhos, somos mais fortes. Como há 20 anos, dizemos: basta!”

Editor-executivo

Escreve à terça-feira

 

http://www.ionline.pt/iopiniao/fantasma-vive-no-coracao-da-selva/pag/-1

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About Andreia Sofia Paixao

I’m an architect but at the moment I’m doing a PhD in the “Architecture of Contemporary Metropolitan Territories” at the University Institute of Lisbon (ISCTE-IUL). I have worked teaching children in a primary school, in performance studies and as a production assistant in dance and events on ecological themes. PhD Researcher _ Architecture / Contemporary Dance / Permaculture My research is situated at the intersection of architecture, landscape architecture, public art and urban development.

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