Demimonde – Entrevista

Demimonde – Entrevista

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10 DE DEZEMBRO, 2013 BY  LEAVE A COMMENT

600_demi01DEMIMONDE – Comunidade artística que dinamiza a Galeria Municipal da Boavista em Lisboa de 28 de Novembro a 23 de Dezembro.

Ora bolas! Há espaço! Vamos usá-lo! aconteceu em 2012 e foi a 1ª edição deste encontro de artistas. Como surgiu o projecto?
O Ora bolas! Há espaço! Vamos usá-lo! surgiu na sequência de trabalho que vinha sendo gerado há mais de um ano. Após a atribuição da residência artística na Rua da Boavista, e de várias actividades instigadas através do Demimonde, em Novembro de 2012 acontece na Culturgest a Celebração, que em seguida foi continuado, culminando no final desse mesmo ano no Ora Bolas! Há Espaço! Vamos Usá-lo! . Um grupo de pessoas, que continuou a crescer, predispuseram-se a manter abertas as portas da Galeria da Boavista (cedida pela CML) e a facilitar o seu acesso entre 28 de Novembro e 23 de Dezembro de 2012, a todos aqueles que se mostrassem interessados em participar.  Através de um open call, nos 35 dias activos daquele período, foram acolhidas 70 propostas, 99 artistas participaram e 200 apresentações aconteceram. O evento surgiu da necessidade daqueles que têm trabalho a apresentar e precisam de um espaço, não só residentes na cidade de Lisboa: houve quem viesse de Coimbra, Porto e Torres Vedras para aderir e recorrer ao projecto. O Ora Bolas! Há Espaço! Vamos Usá-lo! veio mostrar que fazem falta espaços que acolham projectos nas suas mais diversas fases, que o crescimento do tecido artístico e socio-cultural é uma realidade e que, finalmente, este último pode ter uma função e um papel abertos.

600_demi02O que é o Demimonde?
A Máquina Agradável e a AADK Portugal, duas estruturas associadas às artes performativas, candidataram-se a um concurso da CML para residências artísticas. Foi assim que, em meados de 2011, lhes foi cedido um espaço na Rua da Boavista, nº 48. A raiz do projecto foi sempre direccionada para a partilha de espaço entre todos aqueles que manifestassem ter necessidade de espaço para trabalhar e criar. Tendo em conta a situação do país, tornou-se claro que iria ser imprescindível procurar assegurar um lugar onde os artistas não apoiados ou sem estruturas/condições de trabalho, não deixasem ainda assim de realizar os seus percursos. Assim surgiu o nome de Demimonde, um lugar aberto, sem historial, sem relação estética, sem tipologia de trabalho, sem identidade, etc. Demimonde passou a ser um lugar gerido por artistas, reservado à experimentação, trazendo o apoio de espaço para a pesquisa, a apresentação, conversas, eventos e com ligações internationais com artistas nacionais a viverem fora do país.
Directamente apoiado pela CML, o projecto esteve sempre aliado à vontade de contribuir para a dinâmica artística da cidade de Lisboa. A identidade do Demimonde encontra-se em constante construção, porque pretende responder directamente às necessidades actuais e mais urgentes da criação artística, e constituir-se como um conceito experimental de dinâmica colectiva.
Desde a atribuição do espaço, várias iniciativas instigadas pelo AADK Portugal e pela Máquina Agradável, como encontros, conversas e eventos, aconteceram pontualmente, tanto no Demimonde como na Galeria da Boavista. A Celebração que ocurreu na Culturgest em Novembro 2012, foi um evento onde um programa foi inteiramente pensado e promovido por um colectivo de artistas, e que ocupou espaços menos convencionais desta instituição, testando formas de colaboração e cooperação directa entre os artistas, que se vieram a afirmar como inéditas num contexto institucional como o da Culturgest, exigindo grande abertura e agilidade de ambas as partes. Estas dinâmicas e afinidades prolongaram-se depois para o evento Ora Bolas! Há Espaço! Vamos Usá-lo! que, promovendo-se como um evento aberto a todos, cresceu com a colaboração de outros artistas, pois todas as propostas recebidas foram aceites. A preocupação mantém-se em fazer surgir outras formas que possibilitem abranger mais pessoas a criar, que possam gerar cruzamentos de públicos (o das artes plásticas com o das artes performativas, etc.), onde o trabalho acolhido possa ser apresentado ainda em processo bem como numa forma terminada.

O Demimonde cria em colectivo ou é apenas uma estrutura de programação de outros artistas?
Como referido acima o Demimonde não é uma estrutura formal mas sim um colectivo ou encontro ou comunidade aberta de artistas. A sua vocação está principalmente assente na vontade de possibilitar uma maior autonomia por parte dos artistas, face a mercados e programadores, e portanto aberto a todos aqueles que queiram contribuir para essa realidade. Assim, não é definido por nomes de artistas, mas sim pela acção e pela dinâmica que faz surgir nos eventos realizados.

O que é vos move a criar?
Parece uma pergunta bastante pessoal para poder responder em nome de um colectivo. Seja como for, de uma forma geral, podemos talvez afirmar que no contexto deste projecto, temos tido a oportunidade de confirmar que a vontade de criar é muita e não está presa a contextos que visam meramente índices de sucesso individual. Mais do que fechada numa identidade, a necessidade de criar é uma necessidade que surge e procura fazer surgir as mais diversas dinâmicas, que se propagam no tempo e no espaço, muito além dos envolvidos no momento presente.

600_demi03Alguns artistas que pertencem ao Demimonde já trabalharam ou trabalham também noutros países. Quais as diferenças entre aqui e lá?
Pode dizer-se que as pessoas envolvidas de forma mais directa com o Demimonde provêm do mundo da dança contemporânea e das artes performativas. Isto leva a que de facto exista uma ligação e uma relação internacionais activas.
Mas uma estreita relação com a pergunta pode relacionar-se com a natureza da estrutura AADK Portugal cuja estrutura foi fundada em Berlim, em 2008. E que em Berlim, tal como em Espanha, cria uma relação com artistas locais e com aqueles que transitam por esses mesmos locais, criando eventos e dinâmicas artísticas de preferência inovadoras.
Mais do que diferenças entre Portugal e o estrangeiro, são contudo as semelhanças que se encontram no tecido cultural actual que mais se evidenciam.
Que os artistas sentem falta, que procuram e têm necessidade, de lugares onde possam apresentar os seus trabalhos nas mais diversas fases dos seus processos criativos. Quer isto dizer que o trabalho artístico não culmina apenas num produto para servir o mercado mas que também surge através da dinâmica gerida envolta dum projecto em processo.
Uma outra relação de mercado, é que os agentes culturais tomam poucos riscos quando se trata de fazer circular artistas novos nos seus circuitos. Mas a verdade, é que há uma enorme diversidade de trabalhos e colaborações entre pessoas e os seus mediums, que poderiam acrescentar outros discursos ao panorama artístico, mais abrangente.

“Combater a indiferença cultural, um espaço disponível a um público aberto.” Sentem que o público em geral se está a “fechar”?
A indiferença provém mais da administração do país que delineia um ínfimo orçamento para a cultura. Isto acontece nos gabinetes estatais e, como público e como profissionais, preocupamo-nos com a forma como comunicamos a importância que a actividade artística aberta e cultural existe e dá acesso, de forma a que seja incentivada e prosseguida. Estamos fartos de saber que um país avança como economia, como sociedade dependendo da relação sã e activa dos seus cidadãos. E aí a cultura é decisiva, pois contribui para esse crescimento.

600_demi04A que é que podemos assistir nestas semanas de programação?
Tudo e num só dia. Desde performances, exposições, conversas, concertos, trabalhos de mesa, residências artistas públicas, vídeo, recitais, acções nas montras da galeria, um Dançaoke, teatro, uma vernissage duma marca de joalheria, instalações sonoras, uma performance velório, actividades para pais e crianças, a doação de uma biblioteca pessoal, etc. É uma programação vasta, de facto a acontecer na Galeria da Boavista, diariamente. Tudo o que as pessoas queriam fazer acontecer ou sujeitar os seus trabalhos e processos. Por fora, o que se encontra são diversos ambientes de trabalho, de encontros entre vários públicos… Uma colaboração em constante adaptação entre pessoas para fazer acontecer, com as portas sempre abertas a todos.
Parte da iniciativa este ano é dar a conhecer e ligar a outras estruturas, associações que co-habitam na zona, criando assim um primeiro passo de conversa na prática de como no futuro se podem criar estratégias de programação em conjunto. Como várias inuagurações, estreias ou actividades sincronizadas para tirar maior partido dos vários públicos que estejam interessados a deslocar-se para esta zona da cidade [Santos, Cais-do-Sodré].

Como vêem o panorama artístico/cultural português actualmente?
Em processo de reconstrução, de abertura, sugestão para alguns e fecho para outros. Apesar das decisões políticas penosas tomadas no terreno cultural nacional, não deixa de ser um momento para lançar novas/outras possibilidades de intervenção, provenientes de dinâmicas diferentes. O espaço da galeria, neste caso, serve como laboratório, para instigar e sugerir uma outra possibilidade de eventos e um outro espaço artístico, tanto para aqueles que se encontram no terreno poderem praticar, como para os públicos. Mesmo na perspectiva da organização de uma visão, que é criar um lugar gerido por artistas para artistas, convidando vários públicos.

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About Andreia Sofia Paixao

I’m an architect but at the moment I’m doing a PhD in the “Architecture of Contemporary Metropolitan Territories” at the University Institute of Lisbon (ISCTE-IUL). I have worked teaching children in a primary school, in performance studies and as a production assistant in dance and events on ecological themes. PhD Researcher _ Architecture / Contemporary Dance / Permaculture My research is situated at the intersection of architecture, landscape architecture, public art and urban development.

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